At sunset we see the silhouette of a man walking over the bridge.

Crossing the bridge. Anywhere. 2019.

5 km de corrida: beira-mar, beira-rio e a ponte surgia na paisagem. Esse era o sinal de que o percurso estava na metade. Logo chegaria sob aquele monumento arquitetônico para dar meia volta e retornar ao ponto de partida. Conforme me aproximava, era motivador observar seu arco acentuado aumentando até enquadrar a totalidade do céu. 
Assim era o circuito que percorria, dia sim, dia não, durante minhas atividades físicas ao ar livre. Mas somente uma vez, vislumbrei o que parecia ser o vulto de alguém atravessando sua plataforma a pé. Até então não sabia dessa possibilidade. Olhando debaixo parecia ser uma ponte destinada somente à passagem de veículos. 
Alguns dias depois, surgiu um compromisso do outro lado da cidade. O ônibus que peguei passou justamente sobre ela. Pude observar que nas laterais, em ambos os sentidos, havia de fato um espaço destinado a pedestres, mas não vi ninguém passando ali. Decidi então que voltaria a pé para aproveitar melhor aquele ponto de vista. De um lado, o amplo panorama da cidade dividida pelo rio. Do outro, a água doce a se misturar com o oceano para além mar.
Quando retornei, aquela longa tarde de verão estava no fim, mas o sol parecia determinado a seguir noite adentro. Confirmei pelo Maps que estava próximo à ponte, mas não havia nenhuma placa indicando como acessá-la. Quanto mais me aproximava, mais me perdia no emaranhado de rodovias hostis a quem ousa se deslocar sem estar sobre rodas. Na contramão dos carros, zunindo por mim a cento e vinte por hora, percebi que andava pelo acostamento há uns vinte minutos e agora parecia me afastar. Insistir começou a parecer teimosia. Resolvi regressar ao estacionamento de um hotel, através do qual havia acessado aquela via expressa. 
Pouco antes de chegar, vi uma mulher de trinta e poucos anos se aproximando. Ela pisava no asfalto com naturalidade. Pensei em pedir informações, mas quando íamos nos cruzar, notei um brilho desvairado em seu olhar e me calei. Ao mesmo tempo, percebi que pesava alguma miséria sobre seus ombros levemente curvados. Olhei para trás e a vi se afastando. Ela era bastante magra e talvez fosse um pouco mais jovem do que realmente aparentava. Quando passou por mim, terminava de remover os guardanapos que embalavam um sanduíche e, sem interromper a caminhada, logo começou devorá-lo.
De alguma forma, aquilo me comoveu. Fez-me sentir ainda mais estúpido por não ter pedido informação. Era óbvio que eu precisava de ajuda, enquanto ela, a princípio mais vulnerável em todos os sentidos, seguia pela estrada sem hesitar. 
Mudei outra vez de sentido.  Me aproximei pedindo licença, meio trágico, meio sem jeito: como faço para atravessar a ponte a pé? Ela parou, voltou-se sorrindo sem qualquer sem espanto, como se aguardasse a pergunta. Em seguida apontou o caminho: é só atravessar ali, pular a mureta que separa as duas pistas, continuar pelo outro acostamento e, depois da curva, estará sobre a ponte. 
Diante da clareza dessas palavras, percebi que o caminho era tão evidente que eu jamais seria capaz de enxergá-lo sozinho. Após alguns instantes de silêncio, ela disse: eu estou indo pra lá. Virou-se e retomou a caminhada.
Tão logo ela atravessou a primeira pista, comecei a segui-la. Mas não queria parecer um cão sem dono, logo ali atrás, insistente e medroso, entre a atração pelo alimento e o medo de ser atropelado. Assim, tive o cuidado de manter um ritmo mais vagaroso, calculando que, aos poucos, ela se afastaria mais e mais. Seria possível me reencontrar tão logo a perdesse de vista? Eu estava realmente desesperado naquela época. 
Após a curva, assim como ela havia me informado, finalmente acessei a ponte. De lá pude contemplar a paisagem desejada. Olhei à direita e testemunhei a cidade dourada partida ao meio. À esquerda, o oceano impassível. 
Percebi um pedestre do outro lado, caminhando no sentido oposto. Devido ao contraluz, apenas consegui observar uma silhueta anônima seguir rumo ao esquecimento. Aquela imagem dava uma fotografia. Nunca soube quem caminhava ali e jamais o veria novamente. 
Olhei outra vez para frente e percebi que a minha guia havia desaparecido. Tudo de acordo, exatamente como havia calculado.
Nesse instante minha contemplação foi violentamente interrompida. Alguém corria atrás de mim e gritava ofegante: ela… Ventava, não conseguia ouvir. Tentava entender a sentença completa que lutava para alcançar meus ouvidos. Quando finalmente chegou, escutei: ela pulou! 
Será? Pensei. Por isso sumiu de repente? Não era possível... Nas minhas contemplações, eu havia parado várias vezes, dando muita vantagem à ela. Àquela altura, ela conseguiria ter atravessado tranquilamente... Já estava do outro lado da ponte, com toda certeza!
A voz, cada vez mais perto, insistia: Ela pulou, olhe! 
Olhei. Muito lá em baixo, no rio, um navio de turismo passava, sem alarde. Nada. Talvez um ponto ali? Não… Não dava para ver nada. 
O fato é que ninguém atravessava aquela ponte a pé, fora os loucos. Estávamos em uma paisagem anônima e, nesse tipo de lugar, nada deveria ser levado a sério. Por isso, ignorei a voz que me perseguia. Preferi seguir o meu caminho, o qual, aliás, nunca me levou a lugar algum.
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Series: Anonymous Landscape | Format: Ink jet mineral pigment on cotton paper | 100 X 40 cm in: Limited edition of  1 (+1 Artist's Proof) | Signed on verso | Includes a Certificate of Authenticity.
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