Fotografia, memória e narrativa.
Imagine a seguinte fotografia: um homem se cala enquanto agarra o pensamento. Desconfiado, não desvia os olhos daquele que o observa. Se deixar a mente em liberdade, seus lábios podem murmurar palavras incoerentes e denunciá-lo. Ele está cansado, não deseja mais sofrer as consequências da liberdade. Sente-se acuado: será aquele que o observa capaz de revelar sua loucura?
Vi essa imagem quando tinha 4 anos, perto de um acampamento cigano no interior do Rio de Janeiro, mas só consegui fotografá-la em 2009, com 27 anos, no metrô de Paris. Lá estava novamente aquele homem oprimindo a própria loucura e lá estava eu o observando. Desta vez através da minha câmera.
Ainda em Paris, no final da viagem, resgatei seus lábios perdidos. Estavam jogados ao chão, cintilavam vermelhos no labirinto de passagens escuras e subterrâneas. Certamente aquele homem os rasgou da própria face para calar a língua dos loucos.
Mas logo me dei conta: também eram os mesmos lábios de uma apresentadora de TV que, com a voz sensual, murmurava palavras ambíguas em um programa infantil. Seus lábios vermelho-brilhantes estavam sempre em close e eram capazes de hipnotizar os garotos da época. Aquela boca foi o meu primeiro amor. Encontrá-la mais de vinte anos depois em Paris, rasgada da face de um mendigo, foi um momento de epifania.
O exercício da observação é o ato de fotografar sem câmera. Durante a infância, apenas os olhos, a mente e o coração são suficientes para registrar uma imagem. As formas a nossa volta são novidades que apreendemos a todo instante. Tudo o que impressiona os olhos fica guardado em algum lugar da memória.
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